Contágio em tempos virais

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Manuel José Damásio

Vivemos tempos onde o espaço mediativo é ocupado pelo tema do contágio e onde, paradoxalmente, as plataformas emergem como meios primordiais de distribuição de conteúdos tantas vezes apelidados de virais. Vivemos de facto um tempo curioso onde parece que só o que é viral parece captar a atenção das massas. No momento em que os conteúdos tradicionais migravam para as plataformas de streaming o Covid surgiu entre nós como um momento completamente viral: um vírus que se apresenta com um risco de contágio invulgar e que contagia toda a sociedade com um medo até hoje desconhecido também porque nessa mesma sociedade a informação passou a circular de forma viral. O paralelo entre o comportamento deste vírus e o comportamento das audiências de audiovisual perante este novo mundo das plataformas é inevitável. Para as audiências as plataformas apareceram como a nova forma de consumir e aceder a conteúdos audiovisuais. A sua importância crescente ofusca outras formas de distribuição e também aí a emergência suscitada pela pandemia está a ter um efeito dramático, como aliás se pode verificar pela crise gravíssima que vivem as salas de cinema.

Tal como nas plataformas, a forma como os conteúdos alcançam as audiências parece ser similar a modelos de acesso e consumo do passado, também este novo vírus se apresentou como igual a vírus do passado mas ao mesmo tempo diferente, porque mais contagioso e principalmente mais “misterioso”. É por isso que neste texto apresento este argumento algo “bizarro” de que a pandemia de COVID-19 é um exemplo de um modelo de contágio com diferentes dimensões em tudo similar aos modelos de “contágio” que hoje encontramos em ascensão no mundo das plataformas de distribuição de conteúdos. O nosso desafio como educadores e produtores de conteúdos é perceber como é que num mundo onde a inteligência artificial e tecnologias adjacentes estão a ter um peso crescente na definição destes processos de contágio, podemos educar pessoas e desenvolver projetos que possam recorrer de uma forma positiva e proactiva a estes efeitos de contágio em ordem a melhorar a sua performance. E o único caminho para tal é não ter medo. Não ter receio de fazer e arriscar. É esse o nosso desafio em tempos de contágio. Não é um novo “normal” mas sim um novo tempo.


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