Exercício de autoretrato - Renata Spitz

Renata Spitz

  • Atelier de Realização e Produção Cinematográfica, Mestrado Estudos Cinematográficos

Compreendo um autorretrato como aquilo que substancialmente traz o olhar e representação do autor a respeito de si e como ele interage/observa o mundo. A partir deste entendimento, o trabalho realizado para esta disciplina busca investigar a minha relação de flutuabilidade entre o espaço que atualmente habito (Portugal) e aquele que foi deixado para trás (Brasil). Trata-se de um filme que trabalha a perda em suas múltiplas dimensões. O primeiro ponto de reflexão para construir e pensar as imagens é a razão da minha vinda para Lisboa. A chegada de Bolsonaro ao poder e a desestabilidade política do Brasil foi essencial para mexer nas minhas relações afetivas, perspectivas e modo de olhar o mundo.

Em meio ao contexto citado e por causa dele, perco um primo de forma trágica. Victor Heringer era um jovem escritor brasileiro em ascensão, uma das grandes promessas da literatura. Seus livros me marcaram profundamente porque falavam sobre o imaginário da minha infância – as ruas, os subúrbios e a presença da umbanda. Todos esses elementos se encontram condenados e sufocados nesse novo Brasil. Desta forma, o presente trabalho é uma tentativa de dialogar com o ausente: o primo e o país. A morte do familiar é simbólica à morte do Brasil.

O filme foi construído em duas camadas: a primeira é o meu diálogo com esse primo e, por consequência, o Brasil. A segunda é o próprio Victor que fala através de sua obra e de sua voz.

A primeira questão lançada foi: é possível produzir imagens no presente e deslocadas espacialmente de suas origens que remontem a essas memórias particulares? A segunda recai sobre o fato que inegavelmente me pesa – o colonizado observar o mundo do colonizador. A importância desta última questão se dá por conta de todo o processo de negação e domesticação das raízes africanas no Brasil – seja pelo carnaval, a religião e/ou os hábitos suburbanos – que é fruto da nossa europeização e desejo de branquitude. Nesse sentido, tornou-se extremamente desafiador me colocar em um espaço que possui esse peso em minha cultura e na história do meu povo. Apesar disso, realizar um filme inteiramente filmado em Portugal e que se dirige a outro espaço e tempo se tornou uma forma de pensar sobre a atual impossibilidade do meu país ser o meu país. Dentro dessa lógica, somente na cartela final é anunciada a localização do filme.

Em momento algum há uma identificação do espaço.


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