Sustentabilidade – um desafio à produção audiovisual e cinematográfica

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Manuel José Damásio

O tema da sustentabilidade constitui um objeto de trabalho complexo e multidimensional. Para além da óbvia dimensão societal, hoje central em quase todas as discussões que ocorrem no nosso espaço público, o tema da sustentabilidade aponta ainda para numerosas outras áreas sociais, económicas e culturais, que representam um amplo campo de exploração criativa. Nas suas múltiplas dimensões, o tema da sustentabilidade também nos convida a ser crítico sobre a informação que consumimos e as diferentes leituras que aí se veiculam.

O tema da sustentabilidade é também hoje central quando se discute o futuro das práticas de produção audiovisual e cinematográfica. Os princípios de uma produção audiovisual “verde” têm cada vez mais influência nas políticas e orientações nacionais e europeias para a produção audiovisual e cinematográfica, e a procura por uma produção mais sustentável já não é um aspeto menor da generalidade das produções, mas sim um fator central na sua viabilização. A figura do consultor de sustentabilidade (Green consultant) impõe-se cada vez em todas as produções, e os diferentes organismos financiadores condicionam cada vez mais a concessão de apoios à verificação do nível de sustentabilidade de uma produção audiovisual.

Ao escolher o tema da sustentabilidade como unidade temática orientadora dos projetos a desenvolver no ano letivo de 22/23, o DCAM quer mais uma vez promover a capacidade criativa e reflexiva dos seus estudantes, bem como a emergência de múltiplos pontos de vista e propostas projetuais, que na sua diversidade permitam explorar todo o potencial das linguagens audiovisuais e cinematográficas.

A escolha deste tema também se resulta da crescente dimensão internacional do nosso projeto de ensino, na medida em que o tema da sustentabilidade e também o tema que norteia as atividades da FilmEU – Universidade Europeia de Cinema e Artes dos Media, projeto central para o futuro do nosso departamento que a Universidade Lusófona lidera e que se desenvolve no âmbito do programa Europeu “Universidades Europeias”.

De uma forma algo simplista, por “sustentabilidade” entende-se a capacidade de manter ao longo do tempo uma entidade, resultado ou processo. Quer isto dizer que uma floresta, uma exploração agrícola ou um negócio de produção e comercialização de veículos automóveis, podem todos de igual forma ser considerados como “sustentáveis”, desde que as atividades que implicam não esgotem todos os recursos materiais necessários ao prosseguimento das mesmas.

O mesmo princípio pode ser seguido no caso de estarmos a lidar com condições sociais ou bens imateriais. Assim, uma prática cultural (ex. a produção cinematográfica) ou uma política económica (ex. o controlo da inflação em Portugal) pode ser considerada como sustentável senão esgotar o suporte da comunidade que a promove. O uso mais comum do conceito de sustentabilidade está, no entanto, diretamente associado à forma como os problemas ambientais podem colocar em risco a saúde económica, ecológica e social de um sistema.

É esta abordagem mais global aos desafios políticos da sustentabilidade, que está subjacente aos “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável” (ODS) das Nações Unidas (ONU). 2015 ficará na história como o ano da definição da Agenda 2030, constituída por 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). A Agenda 2030 é uma agenda alargada e ambiciosa que aborda várias dimensões do desenvolvimento sustentável (sócio, económico, ambiental) e que promove a paz, a justiça e instituições eficazes. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável têm como base os progressos e lições aprendidas com os 8 Objetivos de Desenvolvimento do Milénio, estabelecidos entre 2000 e 2015, e são fruto do trabalho conjunto de governos e cidadãos de todo o mundo. A Agenda 2030 e os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável que aí constam, são uma visão comum para a Humanidade, um contrato entre os líderes mundiais e os povos e “uma lista das coisas a fazer em nome dos povos e do planeta”.

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Figura 1 – Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

Quando confrontados com estes 17 objetivos, e o enquadramento enunciado do conceito de sustentabilidade, rapidamente percebemos que este nos coloca uma questão básica: será que a atividade, e a própria existência humana, se conseguem manter ao longo do tempo sem exaurir por completo os recursos de que dependem? Colocar esta questão básica encerra um conjunto amplo de outras questões e concentra a nossa atenção num problema central: o impacto da atividade humana e a sua durabilidade ao longo do tempo.

Esta questão não é propriamente nova e já se colocou várias vezes no passado mais recente ou mais longínqua da humanidade, em função de diferentes estágios de desenvolvimento das nossas sociedades. Um dos melhores exemplos deste tipo de problemas, foi o caso da grande crise do esterco de 1894 que ficou conhecida como “The great manure crisis”. Nesse período as ruas das grandes metrópoles, como Londres ou Nova Iorque, estavam literalmente cobertas com o estrume dos milhares de cavalos e mulares que asseguravam a circulação de carruagens de toda a espécie facilitando a mobilidade no espaço urbano (figura 4). Profetas da desgraça anunciavam as maiores catástrofes (ver figura 2) e a crise sanitária estava instalada (figura 3). Após os momentos iniciais de pânico, rapidamente se percebeu que a solução para o problema estava na transformação do fator central que estava na sua origem – a circulação de pessoas e mercadorias no espaço urbano (figura 5) – e foi a emergência do carro como meio privilegiado de transporte que rapidamente pôs fim a esta tremenda crise.

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Figura 2 – The Great Manure Crisis: os cavalos no centro do problema

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Figura 3 – The Great Manure Crisis: uma questão sanitária

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Figura 4 – The Great Manure Crisis: uma questão de circulação no espaço urbano

Esta crise é exemplificativa de como a atividade das nossas sociedades, e o seus propósitos, impactam o mundo que nos rodeia e podem colocar em risco, seja a biodiversidade do nosso meio ambiente, seja a nossa própria existência como espécie. O exemplo concreto da alteração do meio de transporte como solução para o problema que ocorreu no contexto da “Great Manure Crisis”, realça um dos aspetos centrais da discussão em torno da sustentabilidade: a necessidade de promover reformas – neste caso no transporte em espaço urbano – e alterar comportamentos. No entanto, promover tais mudanças nem sempre é fácil, na medida em que esta abordagem óbvia à mitigação dos problemas que nos afligem é por norma conflituante com diferentes interesses ou opções políticas que estão a ser implementadas em diferentes contextos. Ou seja, aquilo que é bom para uns nem sempre é bom para outros, ou para a comunidade em geral ou, de forma mais global, para o nosso meio ambiente.

Um excelente exemplo de tais interesses conflituantes, é o caso que é ilustrado no documentário de 2004 “O pesadelo de Darwin” (figura 5). Este filme aborda os efeitos socais e ambientais que quase levaram à destruição do ecossistema do lago Vitória, o maior lago tropical do mundo, que se estende no sul do continente africano por uma área maior do que a da Escócia.

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Figura 5 – “O pesadelo de Darwin” Documentário de 2004 de Hubert Sauper (França, Bélgica e Austria)

Durante séculos, o Lago Vitória acolheu uma enorme diversidade de espécies, com destaque para os Cichlid, um tipo particular de espécie de peixes de pequenas dimensões de que existiam em abundância no século XIX mais de 350 variedades no Lago que eram endémicas do mesmo. O primeiro ataque sério à biodiversidade do Lago aconteceu no início do século XX, quando o poder colonial inglês quis fixar uma indústria pesqueira de larga escala nas margens do Lago. Se a implementação desta indústria teve efeitos devastadores ao longo das décadas sobre as populações endémicas de peixes devido ao excesso de pesca, isso não foi nada quando comparado com as consequências da introdução da Perca do Nilo no ecossistema do Lago, em inícios da década de 40 do século XX. A introdução desta espécie predadora de peixe foi feita com a “melhor” das intenções, na medida em que as dimensões gigantes deste peixe – uma Perca adulta pode pesar mais de 130 Kilos – representavam um enorme potencial de retorno financeiro para as populações de pescadores nas margens do Lago. A partir da década de 70 o processo de expansão da Perca acelerou com consequências devastadoras. A quase extinção das espécies originais de peixes resultou num crescimento exponencial de algas infestantes que estão a drenar todo o oxigénio do Lago colocando em causa a sobrevivência de todas as espécies aí existentes, incluindo a própria Perca.

O caso do Lago Vitória, ou exemplos similares de introdução de novos métodos de produção alimentar, como é por exemplo ilustrado no documentário “Honeyland” de 2019 (figura 6), são exemplificativos do facto de que a garantia da sustentabilidade, neste caso ecológica, compete em muitos casos com o próprio bem-estar de uma comunidade.

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Figura 6 - Honey Land (Macedónia, 2019)

O conceito de sustentabilidade confronta as sociedades com um novo tipo de questão moral: o que é que deve ser sustentado? Que bens podem ser colocados em perigo de forma aceitável ou razoável pela dramática expansão dos sistemas humanos? Quais os bens materiais que devem ser protegidos? Quais os objetivos que devemos perseguir na nossa procura por maior sustentabilidade? E quais são os princípios que partilhamos em ordem a fazê-lo?

A sustentabilidade refere-se à viabilidade a longo prazo de uma comunidade, conjunto de instituições sociais ou práticas culturais. Em geral, a sustentabilidade é entendida como uma forma de ética em que as ações ambientais e económicas realizadas pelos indivíduos no presente, não diminuem as oportunidades das gerações futuras de desfrutar de níveis semelhantes de riqueza, utilidade ou bem-estar. Mas esta simples afirmação é completamente incompatível com a condições essencial do nosso mundo: os bens materiais são escassos!

Confrontados com esta visão do conceito de sustentabilidade, diferentes indivíduos e organizações adotam posturas completamente distintas. Para uns a sustentabilidade é um valor intocável e, perante uma crise no fornecimento de gás à europa como aquela que vivemos neste momento, consideram que em nenhuma circunstância se pode construir um gasoduto que atravesse os Pirenéus na medida em que isso iria sempre provocar algum tipo de dano a esse ecossistema. Outros consideram a sustentabilidade um valor relevante mas que deve sempre ser considerado em comparação com outras necessidades e valores humanos e, se no exemplo acima mencionado, a falta de gás na Europa nos próximos anos resultar num aumento exponencial de mortes de idosos e crianças durante o Inverno, então o mencionado gasoduto deve ser construído procurando garantir-se o menor impacto possível sobre o sistema ecológico em causa. Outros ainda pura e simplesmente consideram que a salvação de vidas humanas é um valor superior à proteção de um sistema ecológico e por isso defendem a construção imediata do gasoduto independentemente de quaisquer outras questões. Este exemplo demonstra bem como a sustentabilidade é em primeiro lugar uma questão ética.

A ideia de sustentabilidade ganhou destaque com o movimento ambientalista moderno, que alertou para a natureza insustentável das sociedades contemporâneas, onde os padrões de uso de recursos, crescimento e consumo ameaçavam a integridade dos ecossistemas e o bem-estar das gerações futuras. A sustentabilidade é apresentada como uma alternativa aos comportamentos de curto prazo, míopes e perdulários. A sustentabilidade também pode servir como um padrão contra o qual as instituições existentes devem ser julgadas e como um objetivo em direção ao qual a sociedade se deve mover. A sustentabilidade também implica uma interrogação dos modos de organização social existentes para determinar até que ponto eles encorajam práticas destrutivas, bem como um esforço consciente para transformar o status quo de modo a promover o desenvolvimento de atividades mais sustentáveis.

No contexto de instituições ou práticas concretas, a sustentabilidade deve ser sempre contextualizada em função dos propósitos do grupo e da sua relação com o sistema ecológico e outros sistemas sociais e económicos (Solow, 1993). Ou seja, a sustentabilidade para uma Universidade não é a mesma coisa do que para um clube de futebol. Seja a nível local ou global, a sustentabilidade dirige a nossa atenção para a complexidade das relações de dependência entre os sistemas humanos e ecológicos.

É neste contexto que surge no caso concreto da produção audiovisual o conceito de “green production” (Figura 7). O conceito de “produções verdes” significa simplesmente que uma produção deve deixar o menor impacto ambiental possível nos ecossistemas em que se insere. O conceito de “produção verde” está fortemente enraizado no conceito de economia circular e abordagens similares à questão sustentabilidade. Além dos claros benefícios ambientais de se tornar uma produção mais ecológica, os defensores desta abordagem afirmam (ex. consultar: https://greenfilmmaking.com/about/green-film-making/ ) que padrões mais altos de sustentabilidade levam a: uma redução significativa de custos, maior eficiência e economia de tempo, bem como reconhecimento da indústria. Assumir a liderança em sustentabilidade também significa que se estará a par dos requisitos regulatórios existentes e à frente da legislação futura. Mas o impacto ambiental de uma produção audiovisual é assim tão grande? Sim! O impacto de uma produção é muito significativo e há muito espaço para melhorias, por exemplo, em termos de transporte, alimentação, fornecimento de energia, maquilhagem e cenografia (figura 8). As coisas podem ser feitas de forma mais eficiente e usando menos recursos, isso significa que as produções também serão mais baratas. Para os produtores, a chave é identificar prioridades e desafios antes do início da produção. E essa também uma das dimensões essenciais do desafio com que os nossos alunos são este ano confrontados: tornar as suas produções mais verdes! Responder a este desafio vai ser um contributo essencial para que os estudantes possam compreender a complexidade e importância do tema da sustentabilidade para as empresas, comunidades e indivíduos.

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Figura 7 – O conceito de Green Production remete para um conjunto de regras e procedimentos que uma produção deve seguir em ordem a ser sustentável.

A saúde económica das comunidades, a sua integridade ecológica, justiça social e responsabilidade para com o futuro, devem ser integradas em ordem a resolver vários problemas globais no contexto de uma visão social e moral coerente e durável (Agyeman, 2005). Esta abordagem inclusiva suportada numa visão prospetiva, torna a sustentabilidade ideologicamente absorvente e politicamente popular. A sustentabilidade tanto é usada para argumentar a favor e contra os tratados climáticos, a favor e contra os mercados livres, a favor e contra os gastos sociais, e a favor e contra a preservação ambiental. Encontrar um padrão ou uma definição sobre a qual a generalidade dos atores envolvidos esteja de acordo, parece tarefa impossível.

O termo “desenvolvimento sustentável” alcançou proeminência pública internacional através do relatório de 1987 da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento “O Nosso Futuro Comum”, muitas vezes apelidado “Relatório BrundtLand” em honra da ex-norueguesa, Gro Harlem Brundtland. É neste relatório que pela primeira vez surge a famosa definição: “Desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades” (WCED 1987, 43).

A sustentabilidade é um conceito inclusivo e ambíguo justamente porque coloca a dependência ecológica da humanidade, numa relação moral com a sua procura de desenvolvimento económico e as escolhas associadas dos nossos sistemas políticos.

Porque a sustentabilidade exige que os humanos reconheçam os simples factos de dependência ecológica, ela convida-nos a refletir sobre os nossos valores mais queridos e crenças mais fundamentais, os nossos hábitos mais íntimos e as nossas visões do mundo e do futuro. É por todo isto que a sustentabilidade é um tema tão rico e tão desafiante que estamos convictos irá resultar em ótimos projetos.

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Figura 8 – Exemplos de aplicação do conceito de Green Production em diversas grandes produções.

Referências

Agyeman, Julian. (2005). Sustainable communities and the challenge of environmental justice. New York: New York University Press.

Solow, Robert M. (1993). Sustainability: An economist’s perspective. In Robert Dorfman and Nancy S. Dorfman (Eds.), Economics of the Environment (pp. 179–187). New York: Norton

World Commission on Environment and Development (WCED). (1987). Our common future. Oxford, U.K.; New York: Oxford University Press


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